Nova Hollywood

A PULVERIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO DOS PÓLOS DE PRODUÇÃO

 

Não é novidade para ninguém que há muitos anos Hollywood vem se transformando radicalmente em todos os aspectos (logísticos, artísticos, financeiros e comerciais). À medida que a internet evolui e a relação do público com os filmes modifica-se numa velocidade espantosa, toda a cadeia de produção Hollywoodiana sofre um impacto profundo. Os grandes estúdios encaram (e incorporam) um verdadeiro frenesi para conquistar púbico, mesmo que isso signifique produções de qualidade e conteúdo artístico duvidosos. Com custos operacionais cada vez mais altos, o que vale é o lucro – e não necessariamente a qualidade dos filmes. Esse cenário extremo acaba provocando consequências sérias para a indústria cinematográfica, como por exemplo o surgimento instantâneo de novas “fórmulas” mágicas geradoras de lucro. Explicando: quando um determinado gênero cinematográfico parece funcionar e render lucro, imediatamente outros estúdios e grandes empresas produtoras passam a reproduzir “cópias” desse gênero na ânsia de reproduzir seus resultados financeiros, o que explica em parte a avalanche recente de filmes de terror estilo “found footage” à la Atividade Paranormal, ou ainda as intermináveis franquias baseadas em heróis de quadrinhos ou em livros de sucesso (Harry Potter, 50 Tons De Cinza etc.).  Evidentemente isso pode provocar uma falta de pluralidade nas salas de cinema, chegando mesmo ao ponto de incomodar membros da academia e altos escalões da indústria cinematográfica. Para comprovar este ponto, basta perceber quais obras levaram a estatueta de melhor filme nos últimos 10 anos:  Crash (2005), Os Infiltrados (2006), Onde os Fracos Não Tem Vez (2007), Quem Quer Ser Um Milionário (2008), Guerra Ao Terror (2009), O Discurso Do Rei (2010), O Artista (2011), Argo (2012), 12 Anos de Escravidão (2013) e Birdman (2014). Basta ler essa lista com atenção e fica evidente que a Academia está deixando bastante “clara” sua posição de valorizar filmes que priorizem o conteúdo, a reflexão e a qualidade artística nas salas de cinema. Esse recado não poderia ser mais claro do que na última cerimônia do Oscar (r), quando Birdman foi agraciado com o prêmio máximo: um filme ousado, com linguagem artística única e arriscada, nada “comercial” e, ainda por cima, criticando abertamente as franquias multi-milionárias baseadas em super heróis e a forma como Hollywood classifica o mérito artístico.      

Assim como a Academia, outros filões da indústria cinematográfica também contribuem para garantir que a pluralidade e o conteúdo continuem presentes na sétima arte, ou seja, apesar de um cenário que a princípio pode parecer assustador, há boas notícias no horizonte, incluindo algo que pode ser visto como uma verdadeira “diáspora” ou “pulverização” positiva de Hollywood: estou acumulando agora quase 6 anos de vida nos EUA (e mais de uma década de trabalho em cinema) e é fácil perceber que uma enorme conjuntura de fatores tem criado diversos novos pólos poderosos de produção e decentralizado a realização cinematográfica das “mecas” tradicionais em Los Angeles e Nova York. Resumindo, é como se diversas novas “Hollywoods” estivessem surgindo, e com força, ao redor da terra do tio Sam! Vamos analisar alguns dos fatores centrais que contribuem para essa multiplicação:

  • Custos de produção em Nova York e Los Angeles: para cineastas independentes ou mesmo nomes conhecidos mas que não possuam rios de dinheiro fluindo para seus projetos,  rodar um filme em L.A. ou na Big Apple tem ficado cada vez mais complicado, para não dizer impossível! Os custos relacionados à realização subiram à alturas estratosféricas nas últimas décadas, o que significa que para arcar com os seguros obrigatórios, caches mínimos exigidos e as famigeradas “location permits” (documentos que autorizam gravar em locação) é necessário ter alguns milhões de dólares à disposição (isso sem contar que custos básicos como transporte, estadia e alimentação também são bastante “amargos” nessas duas cidades). Além disso, há um fator quase subjetivo mas bastante paradoxal que acaba por afetar muito aqueles que gravam em L.A. ou N.Y. : como a produção de cinema é algo muito comum nessas cidades, a população local está tão habituada que acaba ficando anestesiada e por vezes até mesmo irritada com os distúrbios gerados pelas gravações. Dessa forma, por vezes pode ser complicado encontrar um clima de “ajuda” e “apoio” aos projetos. Como resultado, os únicos que ainda conseguem gravar com desenvoltura são de fato os grandes estúdios, afinal, eles já possuem estruturas gigantescas estabelecidas nesses locais e não precisam lidar com “permits”, transporte, apoio local etc.

…CONTINUA

Tristan e Amanda

TRISTAN ARONOVICH e AMANDA MAYA são atores e cineastas premiados internacionalmente. Um de seus filmes mais recentes, “Alguém Qualquer”, foi finalista para representar o Brasil no Oscar® 2016. Suas produções foram compradas e exibidas pela SONY, FOX, FX, WARNER, PARAMOUNT, TURNER, PRIME BOX BRAZIL dentre outros. Atualmente residem em Los Angeles e dirigem o Latin American Film Institute (LAFilm).

Website: http://www.cinemapro.com.br

1 Comentário

  1. Ivan

    Muito bom. A simpatia de vocês se reproduz em tudo que publicam, escrevem, comentam… Bastante conteúdo e boa informação à disposição… E só estou começando a conhecer. Indico pra quem gosta de cinema e de viver bem, também…

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