CINEMA BRILHA NA COSTA LESTE DOS EUA: 2015 Savannah Film Festival

Que Hollywood, na costa oeste dos Estados Unidos, ainda seja a “Terra Prometida” e a  Meca do cinema mundial – isso ninguém duvida. Mas um pequeno estado na costa leste tem chamado cada vez mais atenção da indústria: a Georgia (entre a Flórida e a Carolina do Sul). Como os estados norte americanos podem formular suas próprias leis, há alguns anos a Georgia percebeu que a indústria cinematográfica poderia trazer bons e volumosos lucros para a região e decidiu apostar em regulamentações que incentivassem os estúdios a produzir no leste do país (as leis criadas facilitam a localização de locações, contratação de profissionais de modo ágil e pouco burocrático além de incentivos fiscais praticamente automáticos conhecidos como TAX incentives). O resultado disso foi uma verdadeira enxurrada de produções audiovisuais migrando de Los Angeles e Nova York para a singela Georgia, conhecida como o “estado dos pêssegos”  (Peach State – pela fartura na produção da fruta). Além das produções, a infra-estrutura também floresceu de modo acentuado nas últimas duas décadas, fazendo da região entre Atlanta e Savannah a segunda mais ativa em realizações cinematográficas e televisivas nos EUA atrás somente de Hollywood (para quem nunca viu nem ouviu falar da região, basta assistir qualquer episódio de The Walking Dead. A série, extremamente popular, é completamente rodada entre Atlanta e Savannah e nos créditos finais sempre é possível ver a imagem de um “pêssego”, contra partida exigida pelo estado para viabilizar os incentivos fiscais).

Mas um dos maiores tesouros da região é o Savannah Film Festival. O Festival tem crescido rapidamente e se tornado um dos mais falados (e badalados) eventos cinematográficos nos EUA. Nos últimos dias de Outubro e primeiros dias de Novembro de 2015, Savannah foi invadida por cerca de 50 mil (!) pessoas de todos os cantos do planeta a fim de aferir prestígio à sétima arte! Para uma cidade com menos de 300 mil habitantes, é fácil perceber como esse contingente de público provoca um impacto significativo na região. Além dos amantes do cinema, o tapete vermelho da cidade também atrai figuras de peso na indústria: Nancy Utley, ninguém menos que a presidente da Fox Searchlight (empresa com 110 indicações ao Oscar® e responsável por filmes de peso como Birdman, 12 Anos de Escravidão, Cisne Negro, Quem Quer Ser Um Milionário e muitos outros) esteve por aqui. Além de prestigiar o evento, ministrou uma palestra/master class para os afortunados alunos e professores do Savannah College of Art and Design (grupo ao qual tenho o privilégio de pertencer!). A atriz já quase “cult” Meg Ryan (um dos símbolos dos anos 80 e 90) também deu o ar da graça de maneira muito especial: presenteou o festival com seu primeiro filme no papel de diretora – o drama histórico “Ithaca” (que conta também com a participação de Tom Hanks). Ithaca narra a história de um garoto de 14 anos que se candidata à vaga de mensageiro numa pequena cidade norte americana durante a segunda guerra mundial. Nem é preciso falar que o garoto amadurece mais rápido do que gostaria ao se ver diante de um fardo tão pesado – entregando mensagens formadas em sua maioria por comunicações de óbito às famílias dos soldados. No jargão americano, o gênero do filme seria descrito como “coming of age”, algo como mais ou menos “crescendo” , “amadurecendo”, e é precisamente disso que o filme trata. A obra é sutil, quase minimalista, e é fácil perceber que em Meg Ryan reside uma diretora sutil com potencial incrível. Ithaca ainda não possui data prevista de estreia no Brasil.

Outro destaque do festival é o colossal “Youth” (Juventude), do italiano Paolo Sorrentino. Com um elenco de causar calafrio aos amantes de grandes performances (Harvey Keitel, Michael Kaine, Paul Dano, Jane Fonda e Rachel Weiss) o filme é uma colossal poesia audio visual. Cada enquadramento e composição parecem ter sido minimamente calculados para provocar arrepios no público. Além do visual estonteante, a música é assinada por David Lang, compositor responsável pela inesquecível trilha de “Réquiem para um Sonho”.

Continuando a sequência de filmes “peso pesado” o festival foi ainda palco de estreia do bastante falado “Brooklyn”, homenagem de John Crowley aos imigrantes irlandeses e italianos que ergueram Nova York no século passado à custo de muito sofrimento, trabalho duro e saudades do lar. O filme chama atenção pela Direção de Arte simplesmente impecável de François Séguin e pelas atuações sensíveis e delicadas de Saoirse Ronan e Emory Cohen. Mas quem rouba a cena é Julie Walters como a divertidíssima dona de uma pensão para garotas.

Outro ponto alto do festival foi “Truth” (Verdade) de James Vanderbilt. Mais um prato cheio para apreciadores de grandes performances através de um elenco estelar encabeçado por Cate Blanchett, Robert Redford e Denis Quaid. Por mais que se saiba dos absurdos ao redor das campanhas (e eleições) de Geroge W. Bush (Jr.), parece que sempre há algo mais a ser descoberto – e o filme traz novos elementos à tona de modo corajoso e inteligente, lembrando em muito a dinâmica de outro clássico protagonizado por Redford: Todos os Homens do Presidente.

Deixando a política completamente de lado, outro drama de êxito exibido no festival foi a biografia “I Saw The Light” (Eu Vi a Luz) do diretor Marc Abraham. O longa narra a trajetória trágica e brilhante de Hank Williams, uma das primeiras grandes estrelas da country music nos EUA que morreu prematuramente aos 29 anos e influenciou diversas gerações de músicos. A atuação de Tom Hiddleston no papel do compositor beira o irretocável (o ator, inclusive, canta verdadeiramente todas as músicas apresentadas no filme – assim como a banda que o acompanha também toca seus instrumentos de fato).

Mas nem só de dramas intensos vive o Savannah Fim Festival! O diretor de filmes trash Lloyd Kaufman (e chefe da cultuada “Troma” ) veio à Savanah apresentar e testar seu novo filme: Return To Nuke ‘Em High Volume 2. A atriz Olivia Wilde (conhecida do grande público por seu papel no seriado House como a médica “Thirteen”) também apareceu por aqui não apenas para exibir seu novo filme mas também para ministrar uma master class aos alunos de atuação. E finalmente, fechando com chave de ouro, a seleção de documentários apresentada na edição deste ano foi simplesmente soberba, com destaque merecido para “Frame by Frame”, longa de Alexandria Bombach e Mo Scarpelli que narra as dificuldades dos fotógrafos, jornalistas e mulheres no Afeganistão pré e pós regime Talebã.

O final do festival, após uma semana intensa de exibições, debates, palestras, workshops (e, claro, algumas festas, afinal ninguém é de ferro!) deixou um vazio em Savannah e na SCAD  (Savannah College of Art and Design) – instituição responsável pela realização do evento –  e uma saudade grande que somente poderá ser extinguida daqui um ano, na edição de 2016! Até lá, vamos acompanhar esses filmes e torcer para que tenham uma trajetória excelente junto ao público e crítica. Para a tristeza do público brasileiro, muitos dos títulos acima mencionados ainda não possuem data de estreia no Brasil, mas junto ao Latin American Film Institute espero conseguir trazer alguns desses longas para o sul do equador em 2016!

Tristan e Amanda

TRISTAN ARONOVICH e AMANDA MAYA são atores e cineastas premiados internacionalmente. Um de seus filmes mais recentes, “Alguém Qualquer”, foi finalista para representar o Brasil no Oscar® 2016. Suas produções foram compradas e exibidas pela SONY, FOX, FX, WARNER, PARAMOUNT, TURNER, PRIME BOX BRAZIL dentre outros. Atualmente residem em Los Angeles e dirigem o Latin American Film Institute (LAFilm).

Website: http://www.cinemapro.com.br

2 Comentários

  1. Rafaela Campanari

    Olá, tenho 18 anos e sou estudante de cinema e audiovisual no Brasil. Gostaria de entender como funciona o site de voces, as aulas, e o porque ele é gratuito. Acabei de me registrar e estou um pouco perdida aqui.

    • Olá, Rafaela!
      O Cinema Pro é muito simples, você tem acesso de forma gratuita à todas as informações que estamos dividindo através do site, FB e e-mails, você só tem que se cadastrar para poder receber todo o conteúdo. Regularmente serão disponibilizados video aulas, cursos e artigos. A razão de ser gratuito é para que possamos fomentar e contribuir para o crescimento da indústria de cinema no Brasil.
      Um grande abraço,
      Amanda e Tristan

Deixe uma resposta para Tristan e Amanda Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *